Por Rosana Valle*
Ao longo dos 25 anos em que atuei como jornalista, cobri muitos carnavais. Fui testemunha da força da cultura popular, da criatividade e da dedicação das comunidades, da emoção que transforma a avenida do samba num retrato do Brasil alegre, trabalhador e resiliente. O Carnaval é do povo. Sempre foi.
Mas o que estamos presenciando agora, na minha avaliação, não é apenas defesa da cultura ou apoio à maior manifestação popular do País. É política e, pior, com o apoio financeiro da máquina pública em pleno ano eleitoral.
No Rio de Janeiro, a escola de samba Acadêmicos de Niterói levará à Marquês de Sapucaí um enredo de exaltação ao presidente da República em exercício, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O problema, a meu ver, não é a liberdade artística, mas o contexto em que isso ocorre.
Há um contrato de R$ 12 milhões da Embratur com a Liesa, que prevê o repasse de cerca de R$ 1 milhão para cada agremiação do Grupo Especial, entre elas a escola de Niterói.
Quando recursos públicos estão envolvidos e a homenagem é dirigida a um mandatário, justamente no ano em que os brasileiros irão às urnas para escolher presidente da República, governadores, senadores e deputados, entendo que o sinal de alerta precisa ser acionado.
Parlamentares do PL, do Novo e do Republicanos acionaram a Procuradoria-Geral da República e o Tribunal de Contas da União para que seja analisada a regularidade desses repasses. A área técnica do TCU, segundo divulgado, apontou para um possível desvio de finalidade.
Como deputada federal pelo PL, em meu segundo mandato, reforço esses questionamentos. Não se trata, na minha visão, de censurar o Carnaval, mas de defender a Constituição Federal e o princípio da impessoalidade, que deve reger a administração pública.
Na prática, estamos falando de um presidente em exercício que será exaltado em plena Sapucaí, com samba-enredo financiado com recursos públicos, em um evento transmitido para todo o Brasil e para o exterior, justamente no ano em que disputará a reeleição.
A democracia não se fragiliza apenas em grandes rupturas. Ela também se desgasta quando limites institucionais são relativizados, quando o poder público se confunde com a promoção de quem governa e quando a máquina estatal deixa de ser neutra.
O Carnaval é do povo. O Estado é do povo. O dinheiro público também. Misturar máquina pública, promoção pessoal e corrida eleitoral é, na minha avaliação, inadequado e perigoso.
Quando o poder entra na avenida, o problema não é o samba, mas o que isso revela sobre o momento que o País atravessa.
✍️ Sobre a autora
* Rosana Valle é deputada federal pelo PL-SP, em segundo mandato; presidente da Executiva Estadual do PL Mulher de São Paulo; jornalista há mais de 25 anos; e autora dos livros Rota do Sol 1 e Rota do Sol 2.
📝 Nota da Redação
Este é um artigo de opinião. As posições expressas são de responsabilidade exclusiva da autora e não representam, necessariamente, a opinião do Jornal Impacto Cotia.

